
Eliana Pittman possui mais de seis décadas de carreira. É uma das primeiras cantoras brasileiras a se consolidar internacionalmente, levando a música do país a palcos e programas de televisão no exterior desde os anos 1960. Filha do músico norte-americano Booker Pittman e da ativista do movimento negro Ofélia Pittman, o jazz e a consciência política foram essenciais para a sua formação artística.
No seu mais recente trabalho “Nem lágrima nem dor”, Eliana Pittman dedica o álbum à obra de Jorge Aragão. O repertório reúne suas músicas em novas interpretações e arranjos, buscando destacar a sofisticação poética de um dos maiores nomes do samba/mpb. A cantora apresentou-se em 35 países ao longo da sua carreira. Eliana defende a preservação da memória daqueles que contribuíram para a projeção da cultura brasileira além das fronteiras nacionais. relembra ainda sua participação em um momento histórico do Carnaval, ao gravar o primeiro samba-enredo lançado em disco
Ao falar de seu pai, Booker Pittman, que era um músico extraordinário e tinha uma compreensão muito profunda da música, conviveu com grandes nomes do jazz internacional e trouxe para o Brasil uma bagagem musical impressionante. O jazz me ensinou sobre liberdade, improvisação, interpretação e, principalmente, sobre a importância da personalidade artística. Acho que essa influência está presente em tudo o que canto.
Da mãe herdou a importância de lutar por dignidade e igualdade para a população negra. Cresci observando sua coragem e sua postura diante das injustiças. Ela me ensinou a ter orgulho das minhas origens e a ocupar os espaços com firmeza. Talvez eu não tenha transformado isso em discurso o tempo todo, mas certamente carreguei esses ensinamentos para a minha vida e para a minha carreira. Minha trajetória também é resultado da força dessas mulheres negras que vieram antes de mim.
Sua trajetória na Europa, Estados Unidos e em outros países encontrou um público muito interessado na cultura brasileira. Existe um enorme respeito pela riqueza rítmica e melódica da música feita no Brasil. Mas os desafios para um artista brasileiro construir uma carreira fora do país são grandes. A nossa música, popular e clássica, continua sendo uma das maiores embaixadoras do Brasil.
Apresentei meu trabalho em 35 países. Em muitos deles, lancei discos e participei de programas de televisão. Fui uma das primeiras cantoras brasileiras a me apresentar no Olympia de Paris, uma das únicas a ser entrevistada no programa de TV americano The Tonight Show, de Jack Paar, nos anos 1960, e a primeira e única brasileira a estampar a capa da revista americana Ebony.
O brasileiro tem memória curta e apaga a própria história. Eu sempre leio na imprensa que a Anitta foi a primeira a isso e aquilo, mas, na verdade, muito antes dela eu já fazia tudo isso, numa época sem internet, redes sociais e plataformas digitais. E não me entenda mal;eu sou fã da Anitta, considero sua trajetória muito importante e admiro muito a forma como ela gerencia a própria carreira. Mas, antes dela, tivemos Carmen Miranda, Astrud Gilberto, eu e muitas outras brasileiras que conquistaram esses espaços internacionais. A crítica não é para ela, e sim ao sistema de apagamento da história dos pioneiros que a levaram a cultura brasileira para fora do país.
Chegar aos 80 anos em plena atividade artística é uma bênção. E continuo acreditando que ainda há muitas histórias para cantar.
instagram:@eliana.pittman